Elementos do totalitarismo hoje: humor como chave explicativa

A tarefa de discutir o totalitarismo hoje em um contexto em que a referência central é Hitler: Ein Film aus Deutschland parece-nos impraticável. Isso porque, como nos diz Susan Sontag, o filme de Syberberg procura cobrir todos os espaços, tornando o objeto já enorme em algo ainda maior.

 

Contudo, as circunstâncias nos obrigam a enfrentar essa tarefa. Sendo assim, destacamos que tentaremos aqui uma abordagem infinitamente mais reduzida e banal que a brilhante análise de Syberberg.

O cineasta nos mostra magistralmente que as chaves de entrada para explicar a lógica operatória que permitiu a existência do nazismo são inúmeras – e até mesmo improváveis (à primeira vista) em alguns casos. Como dissemos, para abordar a questão do totalitarismo adotaremos uma postura mais modesta e, por isso, muito mais limitada. Nossa intenção aqui é adotar o humor como chave explicativa para o totalitarismo.

Para tanto, tomaremos como elemento base – mas não único – alguns textos do blog intitulado Stuff white people like. A proposta do autor é bastante simples: satirizar – de modo geral através de probatio per absurdum – o comportamento das classes médias americanas (predominantemente brancas) na relação de apropriação individual do consumo de massas. Ele mesmo evidência isso ao adotar como subtítulo “o guia definitivo para o gosto único de milhares (Subtítulo que também alude aos livros corporativos e à chamada auto-ajuda, que vendem muito prometendo sempre novos “guias definitivos”).

Evidente que tais textos não possuem, nem tampouco pretender possuir, qualquer tipo de rigor na análise (a própria noção básica de “pessoa branca” é bastante infeliz), mas pouco interessam os exemplos enquanto tais. O que realmente nos importa é o princípio operativo a que esses exemplos aludem.

Vejamos alguns trechos:

Inicialmente, você pode se perguntar, como uma pessoa branca ama uma companhia de bilhões de dólares com plantas de produção na China, produção em massa, e que contribui para a poluição global […]?
A resposta é simples: produtos Apple gritam ao mundo que você é criativo e único. Eles são uma linha de produtos exclusivos usados somente por todo estudante branco na faculdade, designer, escritor, professor de Inglês e hipster no planeta.
[…]
Também é importante que as pessoas brancas sejam lembradas de sua criatividade, e lembre-se que você precisa de um Mac para criativamente checar e-mails, criativamente navegar na internet e criativamente assistir DVDs em aviões.
Pessoas brancas também precisam de iPods, iPhones, Apple TV, AirPort Express, e tudo mais que a Apple produzir. Porque você precisa expressar a sua singularidade comprando tudo o que uma sociedade anônima produz.
(n. 40)

Ou:

Este tipo particular de caderno é bastante caro e foi muito popular entre escritores e artistas no passado. Desnecessário dizer, essas são duas propriedades altamente cobiçadas na comunidade branca. Em fato, é uma boa regra de ouro para se saber que pessoas brancas gostam de qualquer coisa que escritores e artistas do passado gostaram. (n. 122)


Ainda:

Não é segredo que toda pessoa branca adora estar próxima da água. E por que não? Ali existem tantas atividades que elas amam praticar: natação, caiaque, canoas, velejar, e é o lugar perfeito ler por perto.
Mas, antes de continuar, não vamos escamotear este último ponto. Pessoas brancas amam estar perto da água para ler um livro, sentadas perto da água. O processo de ler é de alguma forma intensificado por fazer isso perto da água. Leitura extrema!
(n. 51 )

 

Por fim:

Toda pessoa branca faz ao menos uma viagem à Europa entre 17 e 29 anos. Durante esse período elas provavelmente irão usar uma mochila, ficar em albergues, conhecer alguém da Irlanda/Suécia/Itália com quem terão experiências memoráveis, ficarão bêbados, visitarão algumas igrejas e viajarão de trem.

O que é surpreendente é que todas as pessoas brancas terão exatamente as mesmas experiências, mas todas acreditam que são as primeiras. Tanto é assim que eles retornam para a América do Norte com ideias de escrever romances e roteiros sobre suas experiências. ( n. 19 )


Como dissemos, os exemplos em si não são o que nos é mais relevante. Aquilo que nos interessa – e é facilmente percebido – é o elemento comum a eles, a lógica à que eles remetem: a produção em massa de subjetividades idênticas entre si. O consumo em massa de produtos, serviços e experiências exatamente “únicas” e iguais.

Ora, na medida em que entendemos que o totalitarismo é o domínio de todos os aspectos da vida individual, a relação parece bastante clara: só pode ser entendida como totalitária uma estrutura social que engendra subjetividades e desejos idênticos. Nesse sentido, vale salientar a esquizofrenia latente dessa estrutura: no plano do discurso valoriza-se ao máximo o indivíduo, mas a estrutura totalitária permite apenas uma realização incompleta desses indivíduos; realização no consumo, meramente reprodutiva, que seria mais justamente definida como não-realização.

Em fato, nada de novo há nesse diagnóstico. Teóricos da sociedade discutem há tempos essa relação. Guy Debord a explicita quando diz que “o agente do espetáculo posto em cena como vedete é o contrário do indivíduo, o inimigo do indivíduo, tanto em si próprio como, evidentemente, nos outros. Passando no espetáculo como modelo de identificação, renunciou a toda a qualidade autônoma, para ele próprio se identificar com a lei geral da obediência ao curso das coisas. A vedete do consumo, mesmo sendo exteriormente a representação de diferentes tipos de personalidade, mostra cada um destes tipos como tendo igualmente acesso à totalidade do consumo e encontrando aí, de igual modo, a sua felicidade.” (2003, n. 63)

O espetáculo acima referido por Debord é definido como aquele “momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (2003, n. 42). Em suma, apesar da mudança de nome das categorias, Debord recorre à demonstração marxiana da mercadoria como elemento basilar do capitalismo moderno. Seria maçante e desnecessário reproduzir aqui a demonstração de Marx, já que nos interessam, fundamentalmente, as consequências desse desenvolvimento histórico para os indivíduos que vivem sob a égide totalitária da modernidade capitalista. Como dissemos, a realização individual não se dá. Permanece-se no domínio das necessidades. A liberdade existe apenas no plano discursivo. O totalitarismo, ininterruptamente, priva os indivíduos daquilo que eles têm e lhes faz desejar aquilo que eles nunca terão.

Nesse sentido, o consumo aparece como o completar do trabalho capitalista e, por isso, a realização completa existe apenas para a mercadoria. Aquela individualidade a que os indivíduos aspiram aparece somente às mercadorias, como uma aura que se quebra no momento exato de sua compra, de sua realização.

Não por acaso, ao nos dizer isso em seu filme, Debord exibe imagens de automóveis, símbolos par exellence do reinado das mercadorias. Sobre eles, nos diz outro humorista:

Amor de homem por automóvel não tem senso de ridículo […] O carro enguiça, bate, bebe, é roubado, multado, rebocado, bolinado por flanelinhas e manobristas, arranhado, quando não arrastado em dias de enchente.

Todo motorista passa dentro do carro os momentos mais aborrecidos de seu dia, seja na rotina dos engarrafamentos ou na busca por estacionamento, mas nada disso abala o encantamento do cara que é doido por automóvel. (aqui)

O encantamento é tamanho que despejamos em as nossas largas avenidas, dia após dia, milhares de novos automóveis. O (falso) instrumento da mobilidade e liberdade fica parado, limitado à velocidade das velhas carroças – ainda que custe muitas vezes mais que elas – ou das galinhas.

De todo modo, como já destacamos, nosso elemento central é a lógica que esse totalitarismo reproduz ad infinutum. Impulsionada e mantida pelo Estado, pela Razão e pelo Mercado, a mercadoria triunfa de forma inescapável. Syberberg é explicito: Hitler venceu! O controle sobre a vida dos indivíduos triunfa solenemente, convencendo-os de que é o melhor e o necessário para eles. Syberberg e Debord (entre tantos outros) nos dizem que essa lógica nos impossibilita a fruição, a liberdade, o desejo e, em suma, a vida. Curioso, e assustador, é que não só conseguimos (sobre)viver, como achamos motivos para rir disso.

 

 

 

Referência :

Além dos conteúdos dos links acima, fazemos referência ao filme La société du spectacle (1973), de Guy Debord, ao Capital de Karl Marx (em especial ao primeiro capítulo, A mercadoria), e ao filme Hitler: Ein Film aus Deutschland, de Hans-Jürgen Syberberg (disponível em http://sextamaravilha.sarava.org/)

 

A tarefa de discutir o totalitarismo hoje em um contexto em que a referência central é Hitler: Ein Film aus Deutschland parece-nos impraticável. Isso porque, como nos diz Susan Sontag, o filme de Syberberg procura cobrir todos os espaços, tornando o objeto já enorme em algo ainda maior.

Contudo, as circunstâncias nos obrigam a enfrentar essa tarefa. Sendo assim, destacamos que tentaremos aqui uma abordagem infinitamente mais reduzida e banal que a brilhante análise de Syberberg.

O cineasta nos mostra magistralmente que as chaves de entrada para explicar a lógica operatória que permitiu a existência do nazismo são inúmeras – e até mesmo improváveis (à primeira vista) em alguns casos. Como dissemos, para abordar a questão do totalitarismo adotaremos uma postura mais modesta e, por isso, muito mais limitada. Nossa intenção aqui é adotar o humor como chave explicativa para o totalitarismo.

Para tanto, tomaremos como elemento base – mas não único – alguns textos do blog intitulado Stuff white people like. A proposta do autor é bastante simples: satirizar – de modo geral através de probatio per absurdum – o comportamento das classes médias americanas (predominantemente brancas) na relação de apropriação individual do consumo de massas. Ele mesmo evidência isso ao adotar como subtítulo “o guia definitivo para o gosto único de milhares” (Subtítulo que também alude aos livros corporativos e à chamada auto-ajuda, que vendem muito prometendo sempre novos “guias definitivos”).

Evidente que tais textos não possuem, nem tampouco pretender possuir, qualquer tipo de rigor na análise (a própria noção básica de “pessoa branca” é bastante infeliz), mas pouco interessam os exemplos enquanto tais. O que realmente nos importa é o princípio operativo a que esses exemplos aludem.

Vejamos alguns trechos:

Inicialmente, você pode se perguntar, como uma pessoa branca ama uma companhia de bilhões de dólares com plantas de produção na China, produção em massa, e que contribui para a poluição global […]?

A resposta é simples: produtos Apple gritam ao mundo que você é criativo e único. Eles são uma linha de produtos exclusivos usados somente por todo estudante branco na faculdade, designer, escritor, professor de Inglês e hipster no planeta.

[…]

Também é importante que as pessoas brancas sejam lembradas de sua criatividade, e lembre-se que você precisa de um Mac para criativamente checar e-mails, criativamente navegar na internet e criativamente assistir DVDs em aviões.

Pessoas brancas também precisam de iPods, iPhones, Apple TV, AirPort Express, e tudo mais que a Apple produzir. Porque você precisa expressar a sua singularidade comprando tudo o que uma sociedade anônima produz.

Ou:

Este tipo particular de caderno é bastante caro e foi muito popular entre escritores e artistas no passado. Desnecessário dizer, essas são duas propriedades altamente cobiçadas na comunidade branca. Em fato, é uma boa regra de ouro para se saber que pessoas brancas gostam de qualquer coisa que escritores e artistas do passado gostaram.

Ainda:

Não é segredo que toda pessoa branca adora estar próxima da água. E por que não? Ali existem tantas atividades que elas amam praticar: natação, caiaque, canoas, velejar, e é o lugar perfeito ler por perto.

Mas, antes de continuar, não vamos escamotear este último ponto. Pessoas brancas amam estar perto da água para ler um livro, sentadas perto da água. O processo de ler é de alguma forma intensificado por fazer isso perto da água. Leitura extrema!

Por fim:

Toda pessoa branca faz ao menos uma viagem à Europa entre 17 e 29 anos. Durante esse período elas provavelmente irão usar uma mochila, ficar em albergues, conhecer alguém da Irlanda/Suécia/Itália com quem terão experiências memoráveis, ficarão bêbados, visitarão algumas igrejas e viajarão de trem.

O que é surpreendente é que todas as pessoas brancas terão exatamente as mesmas experiências, mas todas acreditam que são as primeiras. Tanto é assim que eles retornam para a América do Norte com idéias de escrever romances e roteiros sobre suas experiências.

Como dissemos, os exemplos em si não o que nos é mais relevante. Aquilo que nos interessa – e é facilmente percebido – é o elemento comum a eles, a lógica à que eles remetem: a produção em massa de subjetividades idênticas entre si. O consumo em massa de produtos, serviços e experiências exatamente “únicas” e iguais.

Ora, na medida em que entendemos que o totalitarismo é o domínio de todos os aspectos da vida individual a relação parece bastante clara: só pode ser entendida como totalitária uma estrutura social que engendra subjetividades e desejos idênticos. Nesse sentido, vale salientar a esquizofrenia latente dessa estrutura: no plano do discurso valoriza-se ao máximo o indivíduo, mas a estrutura totalitária permite apenas uma realização incompleta desses indivíduos; realização no consumo, meramente reprodutiva, que seria mais justamente definida como não-realização.

Em fato, nada de novo há nesse diagnóstico. Teóricos da sociedade discutem há tempos essa relação. Guy Debord a explicita quando diz que “o agente do espetáculo posto em cena como vedete é o contrário do indivíduo, o inimigo do indivíduo, tanto em si próprio como, evidentemente, nos outros. Passando no espetáculo como modelo de identificação, renunciou a toda a qualidade autônoma, para ele próprio se identificar com a lei geral da obediência ao curso das coisas. A vedete do consumo, mesmo sendo exteriormente a representação de diferentes tipos de personalidade, mostra cada um destes tipos como tendo igualmente acesso à totalidade do consumo e encontrando aí, de igual modo, a sua felicidade.” (2003, n. 63)

O espetáculo acima referido por Debord é definido como aquele “momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (2003, n. 42). Em suma, apesar da mudança de nome das categorias, Debord recorre à demonstração marxiana da mercadoria como elemento basilar do capitalismo moderno. Seria maçante e desnecessário reproduzir aqui a demonstração de Marx, já que nos interessam, fundamentalmente, as consequências desse desenvolvimento histórico para os indivíduos que vivem sob a égide totalitária da modernidade capitalista. Como dissemos, a realização individual não se dá. Permanece-se no domínio das necessidades. A liberdade existe apenas no plano discursivo. O totalitarismo, ininterruptamente, priva os indivíduos daquilo que eles têm e lhes faz desejar aquilo que eles nunca terão.

Nesse sentido, o consumo aparece como o completar do trabalho capitalista e, por isso, a realização completa existe apenas para a mercadoria. Aquela individualidade a que os indivíduos aspiram aparece somente às mercadorias, como uma aura que se quebra no momento exato de sua compra, de sua realização.

Não por acaso, ao nos dizer isso em seu filme, Debord exibe imagens de automóveis, símbolos par exellence do reinado das mercadorias. Sobre eles, nos diz outro humorista:

Amor de homem por automóvel não tem senso de ridículo […] O carro enguiça, bate, bebe, é roubado, multado, rebocado, bolinado por flanelinhas e manobristas, arranhado, quando não arrastado em dias de enchente.
Todo motorista passa dentro do carro os momentos mais aborrecidos de seu dia, seja na rotina dos engarrafamentos ou na busca por estacionamento, mas nada disso abala o encantamento do cara que é doido por automóvel.

O encantamento é tamanho que despejamos em as nossas largas avenidas, dia após dia, milhares de novos automóveis. O (falso) instrumento da mobilidade e liberdade fica parado, limitado à velocidade das velhas carroças – ainda que custe muitas vezes mais que elas – ou das galinhas.

De todo modo, como já destacamos, nosso elemento central é a lógica que esse totalitarismo reproduz ad infinutum. Impulsionada e mantida pelo Estado, pela Razão e pelo Mercado, a mercadoria triunfa de forma inescapável. Syberberg é explicito: Hitler venceu! O controle sobre a vida dos indivíduos triunfa solenemente, convencendo-os de que é o melhor e o necessário para eles. Syberberg e Debord (entre tantos outros) nos dizem que essa lógica nos impossibilita a fruição, a liberdade, o desejo e, em suma, a vida. Curioso, e assustador, é que não só conseguimos (sobre)viver, como achamos motivos para rir disso.

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